quinta-feira, 28 de março de 2013

ONDE ME PERDERA

Tenho setenta e quatro anos. Rotina: acordo, ando, sento no bar em frente, como, levanto, ando, durmo. Tudo isso se repete, num círculo vicioso.
Hoje estava andando na feira pra tomar o meu habitual caldo de cana quando encontrei um amigo que não via há um tempão. O Rodrigues, um companheirão de décadas. Quem diria que o veria casado. Casado, vejam. Fizera o juramento de nunca mais confiar em mulher nenhuma, depois que a sua abandonou o casamento para ser seguidora do Pastor Josafá, da Igreja Dias Melhores, aliás, criada pelo dito pastor. Fizera o juramento, mas desjurou.
-Como que vai, Pentalha (apelido de Rodrigues)? 
-Vou indo e tu? 
-Indo também mas com uma dor aqui outra ali, sustentando. Minha mãe é que está mal.
-Sua mãe? Mas ela já deve estar com noventa e quatro anos, não é?
-Isso, isso, se vivesse, e por ela viveria mais uns dez. Vivia falando: se Deus me desse mais uns dez eu ainda ia ajudar muita gente.
-Ela ajudou?
-Não. Ao contrário. Só falou porque viu a morte na soleira, virou santa.
-A coisa é assim mesmo. Ninguém quer ficar perto da foice.
-Me espanta ainda isso. Mas é. 
Quando encontrei meu colega na feira, estava olhando o semblante das pessoas e fazendo uma reflexão a respeito da vida, mais de suas contradições estéticas do que das éticas.
Estava pensando na grande injustiça da natureza. 
A beleza interior só nos interessa, sinceramente, no leito de morte. Quando queremos, nesta hora mais vida, esquecemos toda mágoa, todo apego a pessoas e esmagamos nosso orgulho. Enfim, amamos a todos incondicionalmente. Temos vontade de beijar até cachorro morto, sem ligar muito pras taras das bactérias.
Por que esse modo de ver as coisas demora tanto e justamente aparece quando estamos indo deste terreno para aquele mais desconhecido?
Quando nos casamos por ideal, vivemos com aquela pessoa amada subjugando todas as forças contrárias e seguimos ainda, depois de muitos anos, acarinhando a alma um do outro. 
Porém, se a beleza exterior nos seduz mais que a interior, a coisa degringola.
Quando minha mulher ficou entrevada, por exemplo, em estado de coma, um tantinho antes de falecer, não consegui controlar meus olhos que se dirigiam, disfarçadamente, para pernas e protuberâncias redondas de coisas e gentes. 
Não conseguia manter minha visão nas retas, pois os olhos pesavam mais pra baixo, na intenção das curvas.
Desejei até ressuscitar meu ânimo, perdido há muito, e continuar um conto, onde criara um personagem, que, pra não perder o amor, quis cegar-se.
Bem, parei o conto no momento em que o personagem tomaria a resolução que mudaria sua vida. Se cegaria mesmo a custa de viver na dependência dos outros? Sim, seu amor estaria salvo. Encheria o copo de seu ser de novos valores interiores, dirigidos pra sua amada, cujas formas a sua mente moldaria. 
Todavia, a sua memória já fora contaminada pelos padrões de beleza da sociedade? O bicho pegou aí.
Contudo, se eu mudasse a trajetória desse personagem e o matasse antes que se cegasse?
Bem, esse conto ainda está ali naquela gaveta trancada a sete chaves...Ou seria oito, nove, dez? Não importa.
Naquele instante em que me despedi de meu amigo na feira, puxei o espelhinho do bolso e, ao me mirar, o que ocorreu? o que ocorreu? eu, eu, eu tinha desaparecido.
Tive de chegar em casa e telefonar para os jornais mais importantes da cidade. Depois, refiz o caminho. Onde me perdera? 

sábado, 23 de março de 2013

ZÉ POETA E O ROUBO DE PALAVRAS (inspirado em Privatização de Palavras materia da revista LINGUA PORTUGUESA)


Zé Poeta chegou no bar do Maciel, pediu um conhaque, e sentou, despejando na mesa um monte de livros que comprara por uma mixaria no sebo que tem ali do outro lado da avenida, do lado oposto aos Supermercados Peralta.

Naquele dia, acordara com uma vontade desesperada. Queria falar tudo que lhe desse na telha. Não aguentaria mais as humilhações daquele grupelho de escritores bebedores de vinho e cheiradores de pó do bar da outra esquina.

- Vendidos. Pilantras comerciantes de palavras!

O bar do Prato-Sujo….Como ele ganhou esse apelido nem é bom falar pra não perder o apetite. O fato é que seu bar estava cheio. Cheio não, cheíssimo.

 - Veja, seu Prato-Sujo, eles chegaram ao desplante de tentar vender a palavra poesia. Estavam lá com aquela maleta invisível onde estava a palavra poesia. Estavam lá, juro. Dei por falta da palavra poesia e fui atrás daqueles biltres.

Quando fecharam os olhos por efeito de gargalhadas impossíveis de conter, voei até eles e roubei-lhes a maleta. Foi por pouco.

Dirigiu-se aos frequentadores:

 - Já ouviram falar em privatização de palavras? Um absurdo. Um absurdo. Um ab, vocês sabem, surdo. Aí vem o cara, posudo, sorridente e com a alma defeituosa dos que posam com damas absolutas de olhos precisos como a lei da gravidade. Vem o cara, de terninho novo, com terminologia jurídica dominante, e diz: para uma marca ser registrada a partir de uma palavra dicionarizada é preciso que não tenha conexão semântica com o produto e bla-bla-bla. Comigo não, figurão. Todo termo linguístico é necessário e de uso livre.

Vejam bem, o Comitê não sei o quê pegou três termos da língua pra seu uso. E sem autorização daquela sigla que não me lembro.

Lembram daquela empresa japonesa que registrou a palavra açai e depois saiu de banda quando entendeu o lance errado?

Pois é, também aquele ex-presidente que sancionou a Lei tal e coisa abriu as pernas e se acharam no direito de lhes roubarem a palavra prepúcio.

Roubei a maleta com a palavra poesia. Eles que venham me tirar.

Olhem pra cá, sonados. Olhem pra cá. Leiam meus lábios. A COFA busca patentear 1200 palavras. Em seu nome, registrou a palavra FUCK, em razão do Campeonato Mundial.

Sei que me tornei um criminoso procurado. Isso não altera minha consciência.

Estou treinando Gramática Marcial. E estou ficando bom. Aconselho aos amantes da língua a fazerem como eu. Pra começar, tentem roubar aquelas 1200 palavras. Tentem ao menos.

Se quiserem, antes, se prepararem em Gramática Marcial, conheço mestres de estilos insuperáveis. Posso lhes apresentar.

Não podemos ficar inermes. E, se nós, os viciados no pó da sintaxe, criarmos novas palavras, temos de nos aferrar às mesmas, senão vocês já sabem. Os aproveitadores estão por aí. São abusadores, estupradores de palavras. Ladrões e estupradores.

Dirigiu-se a Prato:

A palavra poesia está aqui, seu Prato-Sujo. Mas não é minha, é nossa. Dou cópia pra quem me demonstre sinceridade e amor às palavras.

Fora do bar, já lhe esperava a perua do Hospício pra pegar mais um fugido.



quinta-feira, 21 de março de 2013

BUSCAVA UM FILME

Buscava um filme. Tendo de sair da minha preguiça para escrever sobre as maninhas ética e moral, e me pus a pensar em algum filme que me ajudasse a escrever sobre essas duas irmãs siamesas.
Como me encontrasse limpo, vi-me na necessidade de poluir o corpo com alguma substância nociva.
Estava com uma calça cujos botões estavam quase saindo. Puxei com força, acabei "lipidionosamente" por quebrar dois. Pensei aos brados: "caralho!!! Pelo menos, ainda tinha o cinto.
Bem, fui até o supermercado da Ana, aqui perto, na esquina das nações com a sete, à procura de substâncias malditas - refrigerantes diets entre as tais. 

Comecei a percorrer as prateleiras com olhos preguiçosos e remelentos.
De súbito, um perfume doce me invade as narinas de bom tamanho. Fico por momentos inebriado e certo de ter na origem daquele cheiro a origem do elemento buscado.
Percorri o mercadinho todo e não achei a origem daquele odor. Será que meu cérebro já está me fazendo gracinhas, daquelas que levam a ver porcos na caixa registradora?
Desisti de procurar nas prateleiras e já ia saindo quando vejo uma coroa com um poodle de biscoito.

Quando desviei a atenção da namoradeira linda do balcão, observei que um caminhão de suco em pó parava em frente. Bem apropriado. Chegara minha tentadora substância cancerígena.
Costumo pegar o pó do suco e misturar com açúcar. Depois, uma lambida séria. Isso dá um barato que nem lhes conto. 

Aguardei que colocassem na prateleira e comprei trinta suquinhos de pó corante.
Seriam o combustível a despertar a inspiração adequada à geração de obras-primas, nem que fossem de terceiro grau de parentesco com obras bem mais merecedoras. Não precisaria café com adoçante. Que não me surtem mais efeito.
Saí do mercado, atravessei a rua e já ia rodando a chave no portão quando um braço me tocou. Era minha filha me indagando o que eu tinha no pacote.
Quando lhe disse que era suco, ela franziu o cenho. 
Seus olhos caíram nos sucos que eu tentava esconder dela. Ela sabia que os sucos já me fizeram ver 'story-lines' rastejando pelas paredes. 
E eu também, todavia....viciado é viciado. Me lembrou sobre o trabalho de ética e moral que eu prometi fazer pra ela.
Não adiantou que lhe falasse de um filme que buscava para ilustrar o trabalho. E era verdade. Inicialmente, eu buscara o filme. 

Desviei. Coisas de viciado em sucos com corantes pesados.
Minha filha, contrariada, saiu pra outra direção. Eu entrei.
Aproveitei pra diluir umas carreiras de suco em papel-toalha.
Quando a mulher chegou, eu já passara das "story". Já estava vendo argumentos nas arestas do telhado. Detalhe : não há telhado em casa.





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

MARIA LUÍZA DA ÁUSTRIA

Mariano, meia idade, cabelos de queimada, descuidados fios num terreno calvo e vermelho, oásis escarlates dos lados da cabeça.

O dia todo pendurado no muro, batendo os braços como asas. Desce quando a fome aperta.

Porém, antes dele mesmo começar a preparar sua comida, pega o diário e começa a escrever como que para suavizar a sua dor.

“Ela me chegara como uma princesa numa carruagem de fogo. Pelo estado, fugira no momento exato do sacrifício.”

- De onde você veio, hein, menina? O que você veio fazer aqui, justo no meu quintal? Que é isso preso na sua pata? Deixa eu tirar...Pronto.”

“Quando desatei o cordão, parece que ela deu uma risadinha. Dessas que a gente solta por alguma liberdade conquistada. Essa impressão não disse pra mulher. Ela é cética pra essas percepções. Mas alguma coisa a mais me tocava, algo parecido com um sentimento íntimo que não ousava dizer seu nome. Deixei aquilo pra lá e fiquei olhando aquele ser inesperado. Naquele dia já decidi seu nome. Seria Maria Luísa da Áustria. De onde me veio esse nome? Da segunda esposa de Napoleão Bonaparte. Ele tivera as primeiras núpcias com Josefina Tascher de la Pagerie, que fora casada por sua vez com o visconde de Beauharnais. Napoleão divorciou-se de Josefina, em 1809, para casar-se com a esplendorosa Maria Luísa da Áustria...Assim, decidi que esse seria o nome..”

“Na hora, a esposa apareceu e ficou me observando.”

– De quem será, hein, Mariano?

 – Olha, nunca vi essa galinha aqui.

– É, eu também não. Não conheço quem crie galinha por aqui.

– O negócio é deixar ela por aí. Quem sabe o dono aparece.

– Olha, por mim a gente deixa ela engordando. Quando tiver no ponto, a gente faz um cozido. Faz tempo que a gente não come galinha, né?  Dá até água na boca.

“No outro dia, despertamos com a galinha em cima da cama. A mulher assustou-se”.

– Sai, sai daqui, seu bicho escroto!

- Deixa ela. Assim você machuca a coitada.

– Ora, Mariano, é só uma galinha. Bicho tem que ser tratado como bicho.  Deixa eu ir me lavar logo, antes que eu fique toda cheia de doença.

“Assisti ao jogo com a galinha no colo. A mulher limpava a casa e ficava me encarando. Começou a encrencar com Maria Luiza.”

 – Dá pra você tirar esse bicho daqui.

 – Ela não é bicho, ela é um ser vivo.

 – Ser vivo ou não, dentro de casa não é lugar de bicho.

 – Esta casa também é minha.

 – Só que é a escrava aqui que limpa.

 – Quem é que sustenta a casa?

 – Se eu começar a cobrar o que você me deve, você não vai ter dinheiro pra me pagar.

 – Eu sou homem.

 – Um homem parasita. Desde que se afastou, você não..

 – Se eu tou afastado, é porque eu tou doente. Não dá pra eu fazer nada.

 – Mas, Mariano. Você não percebe? Você está ficando maluco? Isso não é coisa de gente normal.

 – O quê?

 – Você com essa galinha.

 – O que tem isso? E aquele gatinho que você tinha?

 – O Ludovico era tratado como animal doméstico. Eu não vivia o tempo todo com ele.

 – Cada um expressa o que sente de uma forma.

 – Toda pessoa normal tem limites.

  –Agora, só por causa disso, eu vou fazer uma casinha aqui dentro só pra ela. Diacho!

“A mulher sai com raiva. Sento no sofá e faço carinho em Maria, que está assustada. Naquele dia, a mulher estava possessa. Fui condenado ao isolamento. Eu e Maria Luisa da Áustria. Ficamos os dois, feito um casal de namorados cujos pais saíram. Acabamos adormecendo no sofá. Com dores no corpo, acordei às treze horas do outro dia. A mesa já estava posta. Nem precisei colocar pratos e talheres como sempre colocara. Sentei para almoçar com Maria ao colo. Fiquei só na sopa. Sorvia uma colherada e dava a outra pra Maria. A mulher do outro lado, bruxa da Disney, nos encarava.”

– Você quer parar de olhar assim.

 – O olho é meu.

 – Eu sei que o olho é seu.

 – Então, se ele é meu, eu olho pra onde quiser.

 – Você tá deixando a Maria Luísa encabulada.

 – Era só o que faltava.

 – Se a coisa continuar assim....não sei não.

– Não sei não o quê? Também não gostei do que você fez ontem.

“Saí com Maria pro quintal. Brincamos muito. Nem vimos o tempo passar. Quando escureceu, fomos pra sala ver as novelas. Depois, assistimos sem assistir, olhamos sem ver o jogo do. Comé mesmo? Dormimos. Às seis horas do outro dia, acordei, olhei pro lado e senti a falta de Maria. Corri ao quintal.”

- Maria Luísa!! Maria Luísa!!

“Passei pela mulher na cozinha. Insight”.

 – O que você fez com ela?

 – Eu? Ainda, nada. Mas você tem que se desfazer logo dessa ...dessa....Esta casa está empesteada com o cheiro dela. Isto aqui ta parecendo um galinheiro. Por mais que eu limpe, a casa perdeu o cheiro de gente. Acho que até você tá se tornando um bicho.

– Já que é assim, eu vou dormir lá fora.

– Vai, vai! Assim, o cheiro fica melhor! E se você quiser, eu levo milho. Pros dois.

“A minha relação com a mulher parecia sem possibilidades. Já com Maria Luísa havia uma delicadeza. Parecia que ela me entendia. O seu olhar adivinhava meus pensamentos. Não havia necessidade de verbalização. O entendimento entre nós era completo. Depois de meia-hora, a mulher aparece. Está diferente, alegre como nunca esteve.”

- Mariano, meu bem, vem pra dentro. Olha, não liga pra minha irritação, não? Sabe, é que eu tou naqueles dias. Sabe como é mulher, né? Entra, vai. Pode trazer ela.

“Estranho a mudança da mulher, mas, como sempre fui pelo entendimento, entro com Maria agarrada ao colo.”

 – Como ela está bonita! Deixa eu pegar ela um pouquinho, deixa?

 – Eu, hein? Você nunca gostou dela. O que tá dando em você?

 – Nada, ué? Eu não posso mudar de idéia?

 – Poder, pode. Mas, essas coisas levam tempo. Mudar, assim, de uma hora pra outra, nunca vi.

 – É que eu pensei melhor e...

 – Viu que tava fazendo besteira.

 – Isso, foi isso.

“Baixei a guarda. Tudo pela concórdia.”

 – Tá bom. A gente vai te dar uma chance.

 – Ela é uma ave tão diferente, né?

– É, é mesmo. Notei isso desde o primeiro dia.

 – Sabe que ela se parece com gente?

 – Também acho isso.

 – Você acredita em reencarnação?

 – Não, o padre diz que isso é coisa do diabo.

 – Diabo é ele. Você sabia que ele pega menininho atrás da igreja?

 – Também tem aquele pastor que tirava o demônio transando com as irmãs.

 – Você tá falando isso por quê? Não sou evangélica.

 – Eu sei. Falei por falar. Você é que começou a falar em reencarnação.

 – É que essa galinha.....

 – Essa galinha o quê?

 – Eu sei que..

 – O quê?

 – Eu sei que ela não tem culpa, mas...

 – Fala de uma vez.

 – Ela parece uma reencarnação daquela sua namorada olhuda.

 – Aquela que você humilhava nos bailes?

 – Eu? Você tá muito enganado. Eu é que era a vítima. A humilhada era eu.

– Ta, tá. Mas isso é uma grande besteira.

– Tá, vamos esquecer isso.

 – Por mim, eu já tinha até esquecido.

 - Sabe que eu até pensei em fazer um travesseirinho pra ela?

 – Boa idéia.

 – Já que você vai fazer a casinha...

 – Você faz os acessórios.

– Isso, afinal nós somos uma família, né?

 – Olha só! Tou gostando de ver. Minha esposinha voltando a ter juízo. Olha, sabe que eu não tinha mais esperança?

 – Vamos esquecer as desavenças. Dá aqui ela, dá?

 – Toma, mas cuidado que ela ainda tá magoada.

 – Pode deixar que já, já, eu faço ela esquecer. Né, meu amor?

 - Amanhã, vamos acordar uma família mais unida. Isso merece uma comemoração. Amanhã a gente compra um vinho, pode ser desses vagabundo, e faz a festa.

“Era bonito ver aquilo. Talvez houvesse um jeito de convivência. Sabia de famílias por aí que viviam bem a três. Finalmente, eu gozaria a paz. A paz de uma família moderna. Duas fêmeas e um homem. Como naquela novela.”

“Uma semana se passa. E na sexta-feira o inesperado acontece. Acordo, olho pro lado e sinto um nó na garganta. Procuro a mulher em desespero. Acho-a sentada, devorando uma coxa suculenta.”

 – O que aconteceu com ela?

 – A tua amante?

 – Fala! O que você fez?

“A mulher come a coxa, de modo sensual e provocante, exibindo o seu crime. Acendeu o fogão e se deliciou, girando a coxa de Maria como um inquisidor se deliciava outrora, vendo bruxas sob as fogueiras.”

– O que você.....

 “Encontrei no lixo as tripas e a cabeça de Maria. Mas tenho certeza que não era dela. Maria Luísa tinha mais elegância, uma nobreza de Imperatriz. Era macia, como uma nuvem feita por Deus. A qualquer momento, ela vai surgir sobre a minha cabeça, numa carruagem de fogo, voando novamente em meu quintal, cumprindo a profecia do coração. E aí então eu poderei recebê-la com toda a minha ternura, com todo o meu amor. Tenho de voltar ao muro. Ouvi alguma coisa. Com certeza, ela se aproxima. Sinto seu cheiro, o calor de sua presença. Sinto o frêmito de seus olhinhos infantis. Ela me chama, sussurra meu nome. Não posso desapontá-la.”

Com agilidade de um galo inconsciente, pula pra cima do muro e cacareja de angústia amorosa. 

Um galo do vizinho parece até que entende aquela tristeza e grita humanamente, em solidariedade.


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 


 

sábado, 27 de outubro de 2012

VAIDOSOS DE PALESTRA

Estava eu pisando nos vestidos da noite com minha cadela preta quando vimos um cão palestrando com as sombras dos sapatos da lua.
Parecia um cachorro muito culto. Talvez seja um daqueles cachorros.....Não, não é nada. Não acreditem em mim.
Não sei a causa de desperdiçar com as sombras seus canídeos conceitos.
O fato é que me senti atraído pelo que expunha.
Acabara o cão de dar a palestra quando o interpelei:
- Bela palestra!
- Não precisa puxar o meu rabo!
- O que é isso, meu amigo?
- Fiz essa palestra como um teste. Não quero fazer mais.
- Mas foi tão produtiva. Você falou sobre...comé mesmo? Ah, sim...das nuances da.....do como .....sei lá, foi demais!
- Este é o problema. A escrita é individual. O escritor não tem que se envaidecer. Tem apenas que viver. O tempo do escritor em palestras poderia ser empregado pra escrever ou ler. Um escritor não pode palestrar com verdades de carteirinha.
- Por que de carteirinha?
- Você não entende? No momento da palestra posso ter sido responsável por matar um escritor de futuro. Posso ter acentuado uma momentânea covardia. Ele pode ter se constrangido com meu conhecimento, que ainda tá se construindo e que eu posso resolver apagar como fez aquele filósofo, o Wit....... E não adianta você dizer que se ele desistir é porque ele não tinha direito a um futuro. Porque eu lhe dou uma patada.
- Mas e os outros?
- Os outros são pessoas que querem sair daqui com a sensação de terem escutado um gênio literário. A porra de um gênio literário de merda. São uns vaidosos de palestra. Já ouviu falar? Precisam de ícones.
- Você quer um osso? Tenho um aqui, ó...
Saí correndo. Quase mordeu minha mão.


sábado, 13 de outubro de 2012

ESCULTURAS PENADAS


Quem passa, à meia-noite, pela Praça do Escritor Maior, se está sintonizado com as forças paralelas da vida, ou mesmo se apertar um pouco os olhos, ou espremer um pouco a alma, notará a tristeza que assalta certa personalidade, considerada em vida um dos grandes escritores de São Paulo, quiçá da Nação Brasileira.
Ali o vi quando voltava da casa de uma cunhada. Me aproximei de seu busto como quem não queria nada. Não fiz as perguntas de praxe por conhecer o Escritor Maior de longa data, nos meus muitos momentos de solidão lilterária.
Fiz-lhe uma pergunta de supetão:
- Meu mano ( não estranhem essa intimidade, não há frescuras entre nós), o que lhe deixa triste como a voz de um sino?
- Ah, Nato (assim só me chamam os íntimos da família), olha essas pichações! Só de imaginar que em vez do meu busto poderia estar aqui o do Menino Fininho, personagem que criei. Ainda bem que é o meu busto que aqui está..
- Mas, Afonso, são os vândalos. A culpa é da falta de educação. Os meninos que fazem isso tiveram pais ausentes e....
- Quisera crer que fosse só isso....
E  ficou soluçando bastante. Parecia que seu soluço se estenderia por toda a madrugada. Cada lágrima sua era uma gota pesada de melancolia.
Meus olhos estavam pesados, em petição de miséria. Como o resto do corpo.
De súbito, ouvi um barulho de bigorna sendo arrastada. Um vulto. Gritei:
- Quem vem lá?
- Apenas um operário arrastando uma bigorna e trazendo uma placa de bronze no pescoço..
- Peraí. Tou te reconhecendo. Você não tava na Praça das Indústrias, na frente do Teatro Municipal?
- Uns vândalos roubaram meu corpo-escultura, mas, eu – a alma daquela obra - consegui escapar. Tenho medo de voltar pro mesmo lugar.  Além do mais, nem sei o que fizeram de meu corpo-escultura. Aqui, vivo a arrastar esta bigorna toda madrugada. Porém, não faço mal a ninguém. E só os sensíveis como tu percebem.
- Por que aqui?
- Porque esta praça é simbólica pra nós, esculturas. Aqui fica o busto do valoroso Escritor, que amou esta terra como poucos. Por milagre, ainda não foi roubado.
- Tá bom. Entendo. Pode continuar seu caminho. – E me sentei.
- Daqui há pouco. Por enquanto, quero me sentar um pouco. Posso me sentar a seu lado?
- Pode.
- Ontem, encontrei a alma do busto de Getúlio Vargas. Vive a rodear a praça que leva seu nome, deixando, volta-e-meia, a cabeça cair...
- Sei. Deve ser porque roubaram a cabeça de seu busto.
- Veja que situação triste. A violência contra nós, esculturas, não tem tamanho. É um descalabro.
- E onde andará a alma do busto do Grande Jornalista, que ficava na entrada da cidade?
- Não sei.
- E a escultura que ficava sobre o obelisco da Praça Taquaritinga?
- Que inferno! Como eu vou saber?
- Calma, foi só uma pergunta...
A alma da escultura do operário se levantou e continuou a arrastar sua bigorna. Fazia um barulho horrendo.
Acabei adormecendo ali mesmo, quase ao lado do busto do Escritor, que se aquietara.
Quando acordei, olhei no celular e já era meio dia.
O que iriam dizer no meu serviço? De novo, o aluado chegando atrasado. Nenhum deles iria querer saber das minhas insônias constantes.
A meu lado, percebi uma série de rostos. Uma mulher sem dentes. Um homem fedorento. Uma criança de peito. Eram, pelo que percebi, mendigos que ali encontraram espaço, por enquanto, até serem expulsos ou encontrarem abrigo em outra praça.
Quando olhei a criança, me veio à mente um fato que lera no depoimento de um vereador eleito. Um fato que ficará comigo durante muito tempo. Ele vira uma criança pegar uma chupeta que caíra numa vala e pôr à boca. O que posso fazer a respeito desse fato? O que podemos fazer?
Senti debaixo de mim uns jornais. Na certa, aquela mendiga de olhar mais gentil os colocara.
Peguei um dos jornais e li que está sendo feito um levantamento das depredações nas praças para um programa de recuperação. Que bom. Talvez essas almas de esculturas penadas tenham paz.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

PARA A MULHER DO FUTURO

Uma garota de quatorze anos ao norte do Paquistão. 
Uma garota que, na florescência de seus quatorze anos, briga pra que as mulheres paquistanesas tenham escola, entre outros direitos.
Com onze anos, a jovem escreveu um blog a BBC descrevendo o domínio do Talebã em sua região, protestando contra o tratamento dispensado às mulheres e clamando pela paz entre Paquistão e Afeganistão. 
Com onze anos, vejam bem!
Malaia mostrou ao mundo que as jovens paquistanesas não compactuam com as leis impostas pelo Talebã.
Então, um homem parou a van e atirou.
Malaia Yousafzai levou um tiro na cabeça no caminho da escola para casa. 
Quantas mulheres não foram queimadas, esmagadas, enterradas, ao longo da história, em nome dos valores patriarcais embutidos nas religiões dominantes!
Antevejo ainda muitas dificuldades a serem enfrentadas pelas mulheres. Não vejo muita diferença entre as mulheres daqui e as dos países misóginos que citei.
Aceitam a inferioridade de serem, no máximo, costelas. Não obstante, haja exceções.
Temos mulheres maravilhosas, mas, muito satisfeitas em serem espelho de santas, de virgens. 
Usam a mesma lógica aplicada pelos especialistas, em grande parte, homens, na análise dos livros religiosos. 
Uma lógica inteligente, inobstante falha se analisada com espírito de justiça. 
Um espírito de justiça que deveria considerar tanto o feminino como o masculino.
A Justiça Divina, pela dita Onipotência, Onisciência, se analisada com rigor, determinaria que viessem como Filhos de Deus um Casal Redentor, por ser isso mais igualitário. O homem e mulher só existem como gênero pela igual participação dos gametas masculinos e femininos.
Então, toda história de criação do mundo, seja nos mitos ou verdades ocidentais e orientais, deveria ter outro caminho, se considerassem esse ponto de vista.
Entretanto, a base de muitas de nossas verdades é patriarcal, trazendo como resultado o predomínio do "pai" até nas expressões linguísticas.
Mas, acredito no crescimento da Mulher. E esta crescendo nos ajudará a crescer. Morrerei antes que isso aconteça do modo que imagino.
Espero que nós, homens, não acabemos como o mundo antes disso. Entre nós, homens, coloco também essas mulheres que comungam de todo o legado patriarcal.
A Mulher que desejo no futuro, ao lado do Homem procurado pelo filósofo Diógenes, não terá réstias de um passado injusto.
Porém, sei, que, até lá, é necessário que surjam muitas mulheres maravilhosas, como a pequena Malaia, como Chiquinha Gonzaga, como Simone Beauvoir, para, com suas células, constituirem o Corpo da Verdadeira Mulher Companheira do Homem, que surgirá, moldado pelas lutas Dela.
Malaia, nós, os que esperamos, te saudamos!
.