sábado, 30 de novembro de 2013

BANQUETE

Um diálogo, na floresta do amor.
- Dá teu pescocinho, garcinha.- Fungou.
- Mania de vampiro, é, Banguelo?
- Pra te sugar somente um dente preciso.
- Taradinho. – Arrebitou-se.
- Biquinho gostoso. – Apertou-lhe a ponta do da direita. Durinho. Soldado pronto pra lutar.
- Ai, não aperta tanto. Dói o escudo.
- Soldados perfilados à revista, promovidos a meus generais.
- Você dizia que era um casal de escoteiros.
- Perto de ti, cada encontro é uma inspiração. Hoje, acho neles um sentido mais militar. E daí?
Mãos cravadas nas coxas inchadas de tesão.
- Ai! Cafajestezinho.
Lábios colados, mascando um mesmo chiclete histórico, guardado desde o início dos tempos.
As mãos ansiosas machucam o insetinho delicado.
Ela dá o troco. Agarra, febril, o ninho de sua volúpia insana.
- Ui!
- Ta doendo, né?
- Mas tá delicioso.
- Lembra? Foi só você soltar o queijo e eu créu.
- Eu, feito o corvo. Você, feito a raposa.
A dama sussurra, após solta um arroto quase silente:
- Me virei do avesso por você. Até no meu remoinho você buliu.
- Cabo a rabo.
O suor no pescoço dela, o odor natural das axilas e dos seios túmidos.
Mordem-se mutuamente. Ele devora um pedaço da orelha dela.
Ela come-lhe a ponta do nariz. De um bote, ele engole-lhe a cabeça. Com seus seios, ela esmaga-lhe o corpo. Dos dois, sobra uma só massa lúbrica.
Aqui e ali, entremostra-se um lábio tapado por um seio suado.

Em um braço, o nome de eternas mulheres. No outro, relação de homens provisórios.

ANJO ASSASSINO

Ele sai do muquifo. Pega um maço no bar do Puto. Lê, "en passant", o jornal no balcão.

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Mexe na bunda da bêbada com calcinha enfiada no rego. Ela lhe xinga. Ele sai correndo.
Detrás das bananeiras da comunidade, movimentos de vaivém.
Um cachorro em cima duma cadela.
Tempos passados, isso inspiraria minutos de sexo solitário.
A cadela sai, ajeitando a calça e lhe sorri.
Ela agüentaria outra chuveirada? Encher os jardins de adubo líquido. Hastear a bandeira num planeta de seios redondos. Coxas grossas, pés descalços...
Alguém me avisa que é um perobo. Foda-se. O mastro tá erguido. Ela pega um ônibus..Sorte dela. Eu ia foder e bater, pra aliviar o pecado.
Um sinal de guerra. O sangue flui rápido. A trombeta do anjo preto fere o ar com sua indignação. O dia do acerto. Derrubar o bonde deles.
Seria dia de encher os jornais com fotos. Seus colegas Biruta e Malaco se aproximam. Portam duas AK-47 e uma lança-Rockets/lança-rojão, que lhe dão com o K estropiado.
Estão intranqüilos. Parece até que andaram cheirando.
Pensa naquele filme que assistiu ontem. Não havia enredo. Só foda animal. Enchera-se de tesão. Gozou três vezes na buceta da Duda, boneca inflável.
Muitas vezes, na vontade de um prazer diferente, quis fuder Duda junto com os outros, mas, pensava, pensava e desistia.
Não era capaz de dividir. O que era seu, era e pronto. O gozo tinha de ser só seu.
Passa de frente do campinho. Lembra das vezes que jogou ali. Agora, tava tudo cheio de mato.
Um dia, chegou do campinho mais cedo que de costume.
Presenciou o pai, a estuprar-lhe a irmã mais nova. Ela só tinha nove anos. Pegara a faca e enfiara nas costas do painimal.
A mãe morrera no cachimbo havia dois meses. O crack é foda. Desde pequeno, adoecido pelos maus exemplos.
Quando iria à cidade dos pés juntos? De quantas orgias ainda participaria? Quanto ainda ganharia? Quanto ainda roubaria? Quantos alcagüetes queimaria? Detestava alcagüete. O último que matara fora um primo. Bum. Bum.
O parentesco não aliviara o ódio. Era tanto, que subestimou o perigo e quase se queimou.
Chegaram ao destino. Combinaram e cada um entrou por um lado da casa.
Barraco vazio. Correram pra fora. Um anjo esperava. Olhou pra trás. Seu corpo era uma peneira.

Olhou pro anjo que lhe apontava uma arma, por segurança, pedindo que ele, alma nebulosa, fosse na frente e seguisse a luz.

O NOME DO MORTO

Quando ele morrera, todos lembraram de suas performances.
Principalmente, os funcionários daquele sequishop, que não tinham certeza, mas, desconfiavam, ao olharem bem a foto no jornal, que era ele. Se não era, parecia muito com ele. Então, decidiram que era, sim, o dito cujo.

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As pessoas do bairro riam agora ao referirem o ódio que tinham dele.
Tudo ficou leve e senhoras de idade passaram a visitar-lhe o túmulo todos os dias. Curas milagrosas aconteceram após pensarem nele. Vereadores fizeram umas tantas moções de aplauso.
Rememoraram certa vez em que, saboreando uma iguaria morena, caíra uma abóbora em seu nariz.
E outra vez em que roubara roupas de uma “dregue”.
E ainda uma outra em que pendurara mulheres num varal para o gozo do vento.Todos os fatos relembrados não mais causavam asco.
Foi sem esforço que conseguiram sua canonização. O prefeito ergueu-lhe uma estátua em que seu membro sexual era coberto com folha de parreira.
As bandas da cidade tocaram na inauguração. Os grupos de teatro apresentaram peças em que ele era o personagem principal. Foi colocado seu nome, seguido de algarismo romano, nos livros de história. Criaram acontecimentos em que ele efetivamente não participara.
Todas as revoluções citadas referiam seu nome.
Todas as guerras ganhas, idem.
Todas as crianças nascidas a partir de sua morte receberam-lhe o nome.
O prefeito pedira até a mudança de seu próprio nome para o do morto.
Na cidade, todos os sequishop foram renomeados com o nome do falecido.

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O estado foi renomeado.O país foi renomeado.Todos os países, o planeta, as estrelas, constelações, as galáxias, os buracos negros – nesse momento deuses caídos gritaram: aí não, criatura!
Como Deus era Deus desde o início, temendo a concorrência de sua criatura, que extrapolara suas intenções, explodiu e refez o universo, cuidando para que o nome do morto fosse esquecido....Ah, sim. Os sequishops continuaram a ser chamados com o nome do que morreu. Foi um pacto de Deus com Mefisto.
O sequishop citado empregou por muito tempo anjos caídos que ali tiveram mais chance de encontrar parentes desaparecidos.

CASAMENTO

Fim:
Seu casamento, feliz no fim, quando os pés são leves como bonecas infláveis de pelúcia.
“BRINQUEDOS SEXUAIS ENCONTRADOS NO BOLSO DO VICE”
Seu marido, o espelho das leis e convenções, tinha um modo de puxar as cadeiras nos restaurantes, semelhante à maneira de colocar o travesseiro embaixo das costas para dar prazer ao coito.
“SEIS CANAIS DE TELEVISÃO PERDEM FECHADURAS”
Sua família apoiara a união, louca pra se livrar de mais uma boca.
“TERCEIRIZADO O CONTATO COM OS INDIOS”
Mais sobra nos sábados em que churrascos chiavam em harmonia com os cliques das latas de cerveja.
“MAR TERÁ DE ABRIGAR EXCEDENTE DE POUPULAÇÃO”
 Mais espaço para as fodas sorrateiras nos recantos da casa, escuros e em construção.
Em casa, a recém-casada esperava o marido.
“BUSCA DE CRÉDITO INDICA INTENÇÃO DE INVESTIMENTO”
 A princípio, o peso que sentira à cabeça não era digno de nota. Pensara ser o cabelo a causa da alteração gravitacional.
“MAIS UM ADOLESCENTE DESAPARECE NA ULTIMA ENCHENTE”
Uma vizinha inocente creditara a culpa ao deslocamento atmosférico.
“384384483384438384 MIL CHANCES DE SE CONSEGUIR”
 No entanto, eram tantas as hipóteses, palpites, piadas, que decidira recorrer ao esotérico.
“MILHÕES DE ASSALTADOS NO MEIO DA PRAÇA SOTERRADA”
 Satisfeita com a resposta abstrusa, cheia de complicações sintáticas, transformara o acontecido numa vantagem, alugando seus chifres como quarador.
“QUEBRA O FAVORITISMO O FAVORÁVEL RIVAL”
O inconveniente era que o teto precisava ser aumentado infinitamente, chegando a tocar no sobrado dos deuses desacreditados, adrede confundidos com anjos caídos.
“REEMBOLSO PARA PLANO DE SAÚDE DO SERVIDOR FEDERAL”
 Uma vez despencara um deus por sua galha, que amorteceu a queda.
“LEI NOVA PARA O LOCADOR LOUCO DE RAIVA DO LOCATÁRIO”
Foi a partir dessa visita bombástica, da qual o deus nu soube tirar proveito, que sua sexualidade ficara incontrolável e a galha foi diminuindo até sumir.
“QUARTÉIS VÃO MANDAR COMO SEMPRE MANDARAM”
 Então, a história terminando pelo início.
 “OBRAMA IRÁ PROPOR UM PACOTE DE BATATINHAS PARA ACOMPANHAMENTO”
Era uma vez uma espos.....
“TÃO ALTAS QUANTO OS PLANOS DE GOVERNO DE SAIR DE HIPOTECAS”
“EXÉRCITO ENFRENTA O FRANCÊS”
Era uma vez um.....
“LE FIGARO DIZ ISSO”
Era uma vez u....
“OUTRA EQUIPE MÉDICA É DESTROÇADA PELAS PIRANHAS DO BATACLAM”
Era uma v....
“ANTES DE SER PROIBIDO PROIBIU DECRETOS PROIBITIVOS”
Era uma....
“DE ENTRAR NO BANCO CENTRAL É BARRADO SEM CENTRO”
Era uma vez uma esposa que conheceu – no sentido bíblico – um deus desconhecido e pediu o divórcio e saiu pelas ruas dando pra deus e o mundo, afirmando o selvagem impulso dionisíaco de ouvir o grelo falante diretamente do notebook.
Era.....

Mif.

ALTO DAS ESTRELAS (LUA NUA)

Ela subiu minhas cuecas até o alto das estrelas.
Como meus pelos já estavam crescidos, foi difícil para ela.
Qual seria sua intenção, ao levantar-me as cuecas até o alto, sujas as estrelas de históricas camisinhas do santo deus, meladas de ozônio?
Dei-lhe um chute. Pulei sobre seu enorme traseiro de Anã Branca.
Rasguei com os dentes sua calcinha que tinha um rastro vermelho muito similar a uma pintura abstrata de Malabufaia.
Como era lua cheia e já estava transformado em lobisomem, aproveitei. Tirei de entre seus seios algumas palavras sobre o Mestre.

Senhor: O bacharel mestre João, físico e cirurgião de Vossa Alteza, beijo
vossas reais mãos. Senhor: porque, de tudo o cá passado, largamente escreveram a Vossa Alteza, assim Aires Correia como todos os outros, somente escreverei sobre dois pontos. Senhor: ontem, segunda-feira, que foram 27 de abril, descemos em terra, eu e o piloto do capitão-mor e o piloto de Sancho de Tovar; tomamos a altura do sol ao meio-dia e achamos 56 graus, e a sombra era setentrional, pelo que, segundo as regras do astrolábio, julgamos estar afastados da equinocial por 17°, e
ter por conseguinte a altura do pólo antártico em 17°, segundo é manifesto na esfera. E isto é quanto a um dos pontos, pelo que saberá Vossa Alteza que todos os pilotos vão tanto adiante de mim, que Pero Escolar vai adiante 150 léguas, e outros mais, e outros menos, mas quem diz a verdade não se pode certificar até que em boa hora cheguemos ao cabo de Boa Esperança e ali saberemos quem vai mais certo, se eles com a carta, ou eu com a carta e o astrolábio. 
Quanto, Senhor, ao sítio desta terra, mande Vossa Alteza trazer um mapa-múndi que tem por aí e poderá ver Vossa Alteza o sítio desta terra; mas aquele mapamúndi não certifica se esta terra é habitada ou não; é mapa dos antigos e ali achará Vossa Alteza escrita também a Mina. Ontem quase entendemos por acenos que esta era ilha, e que eram quatro, e que doutra ilha vêm aqui almadias a pelejar com eles e os levam cativos.
Quanto, Senhor, ao outro ponto, saberá Vossa Alteza que, acerca das estrelas, eu tenho trabalhado o que tenho podido, mas não muito, por causa de uma perna que tenho muito mal, que de uma coçadura se me fez uma chaga maior que a palma da mão; e também por causa de este navio ser muito pequeno e estar muito carregado, que não há lugar para coisa nenhuma. Somente mando a Vossa Alteza como estão situadas as estrelas do (sul), mas em que grau está cada uma não o pude saber, antes me parece ser impossível, no mar, tomar-se altura de nenhuma estrela, porque eu trabalhei muito nisso e, por pouco que o navio balance, se erram quatro ou cinco graus, de modo que se não pode fazer, senão em terra. E quase outro tanto digo das tábuas da Índia, que se não podem tomar com elas senão com muitíssimo trabalho, que, se Vossa Alteza soubesse como desconcertavam todos nas polegadas.
Riria disto mais que do astrolábio; porque desde Lisboa até às Canárias
desconcertavam uns dos outros em muitas polegadas, que uns diziam, mais que outros, três e quatro polegadas, e outro tanto desde as Canárias até às ilhas de Cabo Verde, e isto, tendo todos cuidados que o tomar fosse a uma mesma hora; de modo que mais julgavam quantas polegadas eram, pela quantidade do caminho que lhes parecia terem andado, que não o caminho pelas polegadas. Tornando, Senhor, ao propósito, estas Guardas nunca se escondem, antes sempre andam ao derredor sobre o horizonte, e ainda estou em dúvida que não sei qual de aquelas duas mais baixas seja o pólo antártico; e estas estrelas, principalmente as da Cruz, são grandes quase como as do Carro; e a estrela do pólo antártico, ou Sul, é pequena como a ....escrever isso cansa pra caralho."

Cuspi nas minhas patas e, deliciosamente inspirado por aquela astronômica sede, cocei as chagas e girei a toda rotação em meio a seus mistérios, para alargar o caminho.
As veias do meu membro incharam vistosamente. Então, reparei que estava sem camisinha.
Como pude me esquecer da camisinha? Um lobisomem moderno, sem camisinha, é um acinte.
Todavia, todas estouravam. Tinha cada vez mais dificuldade em encontrá-las com o meu número.
Num instante, devorei um porco e peguei-lhe a tripa. Solucionei o problema da camisinha.
Pedi a ela que me ajudasse, esticando as nádegas, a que eu enxergasse o objetivo.
Ela não só fez isso, como enfiava um, dois, três, quatro, cinco, seis....seis não, cinco dedos, todos os cinco.
E ela ia colocando e gemendo, recolocando e novamente gritando.
Aquilo deixou-me doido. Quando estava pegando fogo, o orifício dela como um lança-chamas, transformei o meu palhaço em engolidor de fogo.
Quando sua bunda encostou em minha barriga, estourou o seu anel e quase que mergulho dentro dela.
Mas tenho problemas de pressão a profundidades máximas.
A dor que eu observava me fazia possuidor de um prazer sádico.
Então, parei dentro dela durante duas horas.
Me fodi, pois, fiquei colado. E ela pulava, pulava tanto, que aumentava o gozo de nós dois.
Um engraçadinho que nos filmava jogou-nos água fria. E descolou? Descolou. Fomos reduzidos a um par de cães vira-latas.
Iara foi embora, tontinha da silva. E a manhã, apontando, ia me despindo dos pelos.
Um garotinho acertou-me com um chumbinho. Ainda bem que não era prata.
Como a manhã já chegara e eu fora reduzido a um almocreve, nada pude fazer senão prometer a mim mesmo comer-lhe a mãe na próxima lua cheia.


EXTREMOS

Os dois estudavam Rousseau.
"...numa palavra, enquanto se dedicaram às obras que podiam ser feitas individualmente, às artes que não necessitavam de numerosas mãos, viveram livres, sãos, bons e felizes, tanto quanto o podiam ser por sua natureza, e continuaram a desfrutar enter si de um comércio independente; mas desde o instante em que um homem teve precisão de ajuda de outrem, desde que percebeu ser conveniente para um só ter provisões para dois, a igualdade desapareceu, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas florestas se mudaram em campos risonhos que passaram a ser regados com o suor dos homens, e nos quais logo se viu a escravidão e se viu a miséria germinar e crescer com as colheitas"
- Olha pra baixo o suor no obelisco...
- Sei, sei, está reto, retíssimo, pronto pra regar.
- O que você tem a fazer?
- Prefiro dar um apertão em outro lugar.
- Ah, você quer apertar a minha nádega?
- Bem, não....sim, sim, é isso.
- Vai com cuidado que a terra é de todos.
"O primeiro que, cercando um terreno, se lembrou de dizer: ‘Isto me pertence’, e encontrou criaturas suficientemente simples para o acreditar, foi o verdadeiro fundador da sociedade civil. Que de crimes e guerras, de assassinatos, que de misérias e horrores teria poupado ao gênero humano aquele que, desarraigando as estacas ou atulhando o fosso, tivesse gritado aos seus semelhantes: Guardai-vos de escutar este impostor! Estais perdidos se vos esqueceis de que os frutos a todos pertencem e que a terra não é de ninguém"....
- Eu não deixo. Prometo. Só quero seu orifício de mistérios feito.
- Diacho. Deixa eu baixar a calcinha.
- É sua primeira vez?
- Claro. Não vê que é rosado e virgem?
- Mas empina bem, tá? Fica de quatro patas.
"Recebi seu novo livro contra a raça humana" – diz Voltaire – "e agradeço-lhe por isso. Nunca se empregou tanta inteligência com o fim de nos tornar a todos estúpidos. Lendo-se seu livro, tem-se vontade de andar de quatro patas. Mas como já perdi esse hábito há mais de sessenta anos, vejo-me, infelizmente, na impossibilidade de readquiri-lo. Tampouco posso dedicar-me à busca dos selvagens no Canadá, porque as doenças a que estou condenado me tornam necessário um médico europeu; porque a guerra continua nessas regiões; e porque o exemplo de nossas ações tornou os selvagens quase tão maus quanto nós....”
- Empinar o quê? Não sou pipa, não.
- Tá. Não empina, mas posso girar os dedos dentro?
"Vejo-o saciando-se sob um carvalho, dessedentando-se num ribeiro, deitando-se ao pé da mesma árvore que lhe forneceu o alimento; e eis com isto suas necessidades satisfeitas"
- Se é assim......- Mas pensou: “um rabão destes, mesmo cagado, deve ser gostoso”.- Então, enfia você.
- Mas...acho que...vamos acabar com isso. Somos desiguais...
“Rousseau distingue duas espécies de desigualdade: uma, que chamo natural ou física, porque foi estabelecida pela Natureza, e que consiste na diferença das idades, da saúde, das forças corporais e das qualidades do espírito ou da alma; outra, a que se pode chamar de desigualdade moral ou política, pois que depende de uma espécie de convenção e foi estabelecida, ou ao menos autorizada, pelo consentimento dos homens. Consiste esta nos diferentes privilégios desfrutados por alguns em prejuízo dos demais, como o de serem mais ricos, mais respeitados, mais poderosos que estes, ou mesmo mais obedecidos"
- Não somos desiguais. E tem mais. Já lhe dei tanta alfafa, que você tem de me dar alguma compensação.
Ela enfia as duas unhas da pata, contorcendo-se de gozo.
Quando fica piscando pela própria natureza, ele lhe enfia o membro milimétrico. Ela se apóia com firmeza no curral. Seus olhos reviram. Ele cospe pra ajudar o buraco negro a devorar luzes de gozo. Ela ofega, enquanto seu orifício espreme o rabanete do outro, num esforço de nascimento vegetal. Não percebem o padre que chega pra extrema-unção.   Porta um machado, onde o sangue de cordeiros sacrificados respinga e ferve no capim seco.


quinta-feira, 25 de julho de 2013

JOSETE E JOSÉ

    


   A loja é pequena, mas jeitosa. Paredes em tom azul-claro. Tudo muito limpo e organizado. Ela, a esposa, é a mais organizada dos dois. Adora coordenar e organizar a contabilidade. Ele, o marido, gosta preferencialmente de atender as pessoas. É um piadista incorrigível, fazendo uso dessa sua habilidade junto aos clientes.
     Caro leitor, não sei se lhe falo por que…decidi: vou falar. A história é inusitada, como toda história real. Se bem que, hoje em dia, o real é que surpreende. Como aquele caso que esteve em todos os jornais da semana passada.
     Lembra? Um casamento que houve inusitado. Ele se tornou ...Entra naquele site, o vírgula.uol que você vai saber em detalhes. O título da matéria vai tar assim, ó: “Após nascer com sexo trocado, casal transgênero se apaixona em terapia”. E lembra aquele outro caso? Do cara que tinha duas mulheres cadelas, pagou faculdade pra elas e elas não…Não, espera lá. Você não tá entendendo, é isso? Tou indo muito rápido? Então, entra na internet e depois a gente conversa. Vê lá vocabulário de sadomasoquismo. Vai na wikipédia direto. Não posso falar sobre o caso assim, sem que você leia alguma coisa antes. Ao menos, contacte a superfície do assunto.
     Voltemos à comerciante e seu marido. Falemos primeiro de José, um nome simples, né? Sem parangolés. Não é como Anaximenes ou Asclépio Usurpino. É José. Assim só. Quase um sussurro a dois tempos. Um pra cada sílaba: JO-SÉ. José, filho de Dona Guiomar. Esta foi uma excelente doceira, tendo falecido quando ele tinha vinte e sete anos.
     Guiomar morrera feliz, olhando suas roseiras à janela. Fora caindo pra trás, num lance quase cinematográfico. Quando a cabeça bateu no chão, sua alma saltou pra fora. A alma olhou o corpo desconfiada. Pensou em pegar uma pá pra recolher os restos. Durou um instantinho isso pois uma mercedes de luz dourada a sugou. Diz-que o motorista tinha pele de rubi. Verdade? Não sei. Só sei que tá na boca do povo. O fato é que ela gostava de mercedes e de rubis. Não teve nenhum dos dois em vida.
     José era apaixonado, apaixonadíssimo, pela homossexual Josete. Se conheceram quando sentaram ambos naquele banco de praça do Largo do Sapo. Olharam-se e já sentiram os corações acelerarem. Ela ficou confusa. Sempre gostara de mulheres. Ele ainda não sabia dessa peculiaridade. Vestia-se ela como uma mulher comum. Um pouco até como adolescente. Suas pernas à mostra ainda eram convidativas apesar de uma mancha aqui e ali. E, de idade,  ela devia beirar os quarenta e cinco.
     Tiveram um encontro no outro dia. Dia que foi marcante, pois José presenteara Josete com uma sacola de chocolates. E depois muitos outros encontros houve. Daria, de modo matemático, para somar os encontros e tirar como resultado um só ENCONTRÃO, na sucessão dos meses.
     Quando estavam já num estágio maduro da relação, ela lhe contou sua vida. Falou das ex-esposas, ex-namoradas, ex-paqueras, de um ex-namorado, única exceção masculina no leque de suas ligações. Brigaram tempos depois. Resolveram dar um tempo na relação. Ele tentara aceitar as lembranças dela, porém, já estava cansado de a toda hora ela relatar sobre seus amores do passado. Não parava de recordar.
     José entristeceu. Seria ela um amor impossível? Como iria conviver com uma mulher que poderia trocá-lo por outra? Ele fora educado no extremo código conservador do cristianismo mais ferrenho. Fora o mais denodado defensor da cura gay nos tempos do Felicianuretto, um italiano ex-gay que odiava gays e que fizera polvorosa nas igrejas novíssimas há três anos.
Coitado de José. Seu coração era agora um vulcão em erupção, vertendo uma lava de emoções inauditas.
     Josete ficou arrasada. Um homem aparecera para revolucionar suas concepções. Tentara, antes de conhecer José, se envolver com uma garota que frequentava todos os dias o bar do Otanias, conhecido por todos daquele bairro como Otan. Uma dançarina de nome Karen, que odiava o nome Karen. Gostava de ser chamada de Skar Got.
     Karen era feminina, mas, se sentia um homem. Gostava de fazer delirar carnes fêmeas, regando-as a muito carinho, descontando o que seu pai não fez com sua mãe. Karen era uma mulher na carne, mas não se sentia tal no espírito. José, antes de conhecer Josete, achava as relações homossexuais uma aberração. Onde já se viu? Isso vai contra a Bíblia, Deus.
     Ah, os pais de Karen eram de uma igreja evangélica, uma tal de Bolinhos de Chuva de Deus, uma entidade bem ortodoxa.
     Uma vez, Josete, para disfarçar o amor que curtia pela dançarina, seduzira Rogério, um professor quase cego, que assim ficara devido a um jato de cola poderosa que lhe atingira o olho direito.
     Rogério, o homem seduzido, morava do outro lado da cidade. Era casado com uma mulher que, por sua vez, ainda não tinha rompido os elos com o ex-marido, ao qual sempre visitava na prisão, sem Rogério saber.
     Possuía uma grande coleção de pássaros engaiolados. Demonstrava enorme sensibilidade com os mesmos. Principalmente quando os via presos em suas pequenas jaulas. Tinha um prazer quase mórbido nisso.
     Josete só se atrevera a dar-lhe uns beijinhos. Era o suficiente para o professor? Não, ele tinha de esperança de avançar mais e mais.
     Gozo mesmo Josete tinha ao deitar com Karen. Ali, havia um cuidado e um carinho que Josete nunca gozara em suas relações anteriores. Bem, ela foi pegando nojo de Rogério. Um nojo incontrolável. Dispensou-o. Sem tato, porém.
     Karen conseguira um emprego em São Paulo com uma ex. E Josete não precisava disfarçar mais nada, nem mesmo sua dor de corno. Voltou a mostrar suas reais preferências vulvânicas.
Não teve remorso do que fez com o homem. Todo homem para ela merecia punição. Como seu tio, que a pegara muitas vezes no colo, de forma não muito inocente.
     Rogério arrasado estava no bar do Otan tomando uma, quando lembrou de um comentário de Josete, sobre ter chorado quando o tio furou os olhos de um canário com um alfinete. Será que choraria ela por ele? Comprou uma cola daquelas de colar aço e aplicou no olho bom. Não fez muito barulho. Só enviou uma carta a Josete falando que fazia aquilo por ela, imaginando-a em prantos, mas ela nem aí para a dor dele.
     O grande problema se estabeleceu quando apareceu José. Fodeu tudo. Ficou Josete mais sensível ao sofrimento dos homens apaixonados? Por que não fazia tal como fez com Rogério? José plantara uma erva de amor em suas veias? E como esse tempo que deram a torturava!
     Um dia, estava ela, intranquila, a fumar um cigarro, nas imediações do bar do Naldo, fronteiro ao bar do Otan, e notou José a cambalear ao lado de um de seus grandes amigos de infância, o Sombra. José também a vira. Foi só se enxergarem numa quase-fusão de faces, pra se atirarem um nos braços do outro. Se deu assim: os olhares se encontraram. Tentaram ficar de costas, no entretanto, de súbito, se voltaram, ficaram frente a frente, imaginaram o diretor, técnicos, cabos-man, câmeras, gruas, talvez uma música de fundo, aquela de Ghost. Perdoe o gosto deste escritor, que não é cult.
     Correram aos braços um do outro, então, em câmera lenta.
     - Eu te amanheço. – Esta a maneira de dizer te amo dele pra Josete. Um código que estabeleceram para substituir a palavra amor, tão vulgarizada. Ela lhe disse em resposta:
     - Eu me anoiteço sem ti. - O Sombra, que não gostava de nada melado, saiu de banda, enquanto os dois passarinhos entrelaçavam os biquinhos. José disse a Josete que estava disposto a fazer tudo por ela. Que ela o aguardasse. Ele sumiria por dois anos. Mas estaria fazendo o melhor pelo futuro de ambos. Josete concordou e ficou na expectativa.
Dois anos era tanto tempo, pensava ela. Mas também não era nada. Ou por outra, poderia se livrar dessa dependência que sentia em relação a ele.
     Josete tentou se ligar a outras pessoas, particularmente, mulheres. Mas dentro dela um grande transatlântico de amor já fundeara.
     Um dia, no bar do Otan, estava ela a tomar uma cerveja. Olhava as meninas ainda com olhar de tesão. Porém, sentia uma lealdade com José que a impedia de levar avante seus desejos.
     Na porta, alguém lhe mirava com volúpia. Uma mulher morena, chique, bem maquiada. Parecia até uma dama da alta sociedade. Josete não percebeu esse assédio.
A “chique” se aproximou:
- Oi, você é daqui?
- Sou.
- Me pediram pra entregar isso pra ti.
Josete olhou para as mãos da outra e pegou a sacola que lhe estendia. Era uma sacola com chocolate suficiente pra todo o mês. Quem terá pedido pra entregar-lhe? Teria sido….Será?
- Foi o José que mandou? Onde ele está?
- Foi sim. Ele está aqui.
- Aqui. Onde? Me diga logo.
- Sou eu, minha manhã de sol.
- Você?
- Sim, troquei de sexo por ti. Tomei hormônios. Sou agora a mulher com a qual você sempre sonhou. E minha voz? Gosta?
- Não? Não creio.
- Sim. Pode crer, minha bela. Meu nome agora é Guiomar.
- Guiomar, que nome bonito…Me beija logo.
Ambos se beijaram febrilmente, dava pra se ver os fogos explodindo na alma dos dois.
     Josete, pra não ficar em desvantagem, tratou de providenciar a sua masculinização. Ganhara pelos, cortara os cabelos. Só não conseguiu trocar de sexo. Nem abandonar os vestidinhos. Nem o hábito de comprar sapatos de salto alto. Deixaria pro outro ano a mudança de sexo. Por enquanto, Jos…., digo, Guiomar, ia ter de se contentar com carinhos, dedinhos e consolos.
     Ambos, no intuito de aumentar a renda, abriram um sex-shop. Um negócio bem promissor nos dias que correm.
Lá vem Guiomar. Ela, ou seja, ele, entra, ajeitando vestidinho e brincos, falando em minha direção:
- O que o senhor deseja? Temos acessórios de todos os tipos. Veja essa bocetinha de vinil, essas bonecas, e este joãozinho rosado que chegou da Holanda….