terça-feira, 22 de maio de 2018

PORÃO

PORÃO de natanael gomes de alencar
O relâmpago brincava como jamais brincara nos ares de Cubatão. A chuva nunca caíra tão pesada. O vento a lhe fazer companhia insistente. Ela não queria nada com ele. Mas Boreas insistia. Não ligava aos estragos que fazia o brutamontes. As roupas voavam dos varais das janelas. Crianças eram seguras pelas mães como leoas com seus filhotinhos entre os dentes.
Mas naquele barraco tudo decorria como se não houvesse nada colocando em risco suas bases.
Era noite, escancaradamente noite, um breu quase total e a família estava toda reunida na sala. Uma sala com um sofá rasgado, uma TV digital e uma mesinha cheia de curativos marceneiros, muito remendo com ripas, cola de madeira, parafusos e pregos.
O pai, Lindomar, uns quarenta anos, brincava ao celular, conseguido de maneira ilícita de quem também o conseguira do mesmo modo. Era difícil uma vida completamente lícita quando os preços dos produtos eram incompatíveis com a renda numa escala monstruosa.
Maria, a esposa, mesma idade do marido, num vestido rosa, comprado num bazar de pechinchas, mexia o feijão. Fizera há pouco o mingau pra matar o desejo de doce da meninada – e dela também. O vício do doce à noite era de quase todos os barracos sobre o mangue. Para Lindomar, Deus palitava os dentes com os fiapos de madeira daqueles barracos. Tinham dois filhos adolescentes. Josefina, com vinte e dois anos. E Rizomar, no canto esquerdo da sala, sentado no chão, com vinte.
Rizomar fazia umas contas no celular, sem camisa e com uma bermuda larga, que ostentava as cores e símbolo de seu time do coração, a Associação Atlética Portuguesa, a Briosa Portuguesa Santista. 
Lindomar vai até a panela. O cheiro está sedutor, do tamanho de sua fome. 
- Calma, home. Espera mais um cadinho. Em cinco minutinho tá saindo.
- Não resisti. Ninguém faz um arroz gostoso como o seu.
Lembra da filha.
- Uai, cadê Fina? Tava aqui agora mesmo.
Maria coça o pescoço. Lembra de um movimento que notou quando apanhava os chinelos atrás da porta.
- Alguém ligou pra ela. Agora que os amiguinho descobriu que ela tem celular acabou o sossego... 
- Não sei se é bom celular pra ela. Pode atrapaiá os estudo.
- Mas você também não tava venu?
- Não tem nem comparação. Eu sou o pai dela. E, além do mais, até ontem, ela não tinha celular.
- Foi o Rizo que deu pra ela.
O pai se dirige ao filho, que está coçando os vãos dos dedos dos pés, empesteando de chulé todo o cômodo.
- Onde tu tá arranjanu dinheiro?
- Pai, tou fazendo bico. Me virando. Este mês até ajudei mãe nas compras. Né, mãe?
Citada, Maria, se aproxima.
- Rizo tem ajudado muito a gente. Sem ele, nós não trocava de roupa, nem tinha mistura toda semana...
O pai coça o peito, cheio de placas vermelhas. Põe a mão na frente da boca para ver se está com bafo. Pega o copo de cachaça e procura a garrafa.
Encara Rizo, que se sente mau com a proximidade inquisitória.
- Fico pensanu onde são teus bico. Se são coisa honesta...
A mãe sente necessidade de falar em defesa do filho.
- Claro que são, home. Deixa de criar caso com o menino.
O pai desiste de procurar a garrafa e coça o pé da barriga. Deu pra aparecer uns pontinhos de dermatite. Espreme limão nas mãos e passa. Dona Sônia do primeiro barraco que falou ser bom. Limão é bom pra tudo, até pra sobrancelha caída. Aprendeu com a rua, dizia. Será que os que dormem na rua são médiuns de cura? – pensou.
- Filho, teu pai sabe, me escuta, eu quero o melhor pra tu, ver tu num emprego de verdade, tu me entende? Outra: não gosto de te ver metido com esse tal de Porão – isto é apelido de gente? Um homem que tem um apelido desse tem que se tratá!!!
- O Porão é gente boa. Só por que ele foi pego uma vez vendo a filha do Mandrake se trocando? Isso foi faz cinco ano. Hoje, ele já não se liga mais nesse negócio de ver escondido.
- Pra mim, ele é um desviado, pronto.
- E o senhor não trabalha enchendo pino lá no...
Voou um tapa medonho. O pai ficou possesso. O filho chegou a quebrar uma garrafa e avançou. Mas Paulão, um vizinho de ouro, chegou na hora. Vinha perguntar alguma coisa pra Dona Maria. Quando viu a cena, pulou pra cima de Rizo. Agarrou ele por trás e dominou as intenções deste.
- Mano, deixa disso. Tu qué estragá a tua vida?
Querendo esquecer a história dos pinos, o pai volta à principal polêmica.
- Num quero ver o Porão mais por aqui! Sua irmã agora só vevi choranu pelos cantu!
Paulão aproveita:
- Depois, eu volto. Tou vendo que cês tão tendo um papo de famía.
- Falou, mano. Depois, a gente conversa, disse Rizomar, com a respiração ainda alterada e com o pedaço de garrafa tremelicando nas mãos.
- Até mais, Dona Maria.
- Até, fio.
- Seu Lindo...
- Tchau.
Rizo larga a garrafa quebrada. Não tem pra onde ir. Por um instante, pensou que seu pai ia expulsá-lo de casa. Pega o assunto de Porão pelo rabo.
- O senhor foi o culpado. Eles queriam namorar e o senhor num deixou. 
- Um homem que já se meteu em porão de palafita pra ver pedaço de bunda de mulher num merece namorá minha filha. E num foi só uma vez não. Ocê não tá sabenu fazê as conta.
- Pai, o Porão não faz mais isso. Foi preso. Pagou pelo que fez. Hoje ele é um inocente. Se tratou com psicóloga até. E tem andado na linha. Tem até me ajudado a distribuir santinho pra um candidato aí....
- Que candidato?
- O tio Pororoca...
- Teu tio tem muito papo. Melhor você num entrá na dele.
- Ele tem pago pra mim direitinho. Acho até que ele me paga melhor do que aos outros.
- Mas além desse bico, tu tem buscado trabáio de verdade?
- Tenho deixado currículo em tudo que é empresa daqui e de Santos, mas até agora....
Fina chega da rua.
- Encontrei o Paulão no caminho. Tava meio esquisito. Nem tentou me pará pra jogá aquelas piada dele.
Percebeu o ambiente meio tenso. 
- Que que tá acontecenu. Algum parente morreu?
- Não, seu irmão que ainda tá escovanu o vestido da noite.
- O quê?
- Tá sem emprego...
- Pai, ele tá se esforçando. Sou eu que tou fazendo os currículos dele lá no trabalho.
Dona Maria, sempre na boa, não queria se meter. Porém, tem necessidade de ficar solidária ao filho, seu preferido desde o nascimento.
- No fundo seu pai sabe...
O pai pega um ovo, o único, pra fritar, e pontifica:
- Mas sempre a gente pode se virá...
- Como? Fazeno pino, home?
Lindomar não fazia pino, ele enchia. Com sua esposa não daria pra ter a mesma reação que teve com o filho. Se ousasse, não ia sair inteiro. Todos gostavam de sua esposa, vizinhos, que estavam tão próximos e até....ele.
- Meu trabalho é um trabalho hones...de filho-da-puta, eu sei, mas... 
- Cê não acha, bem, que Rizo merece um futuro melhor que o seu?
- Acho que num dá pra ficar esperano a sorte bater na porta...E eu já tou saindo desse bico. É que fiquei desesperado. Mulher, a gente tava passando fome...E eu sou um velho, imprestável. Mas meu filho não. É novo, bonito, tem força....
Com certa dó do pai, a filha lhe dá um abraço.
- Pai, Rizo vai conseguir. É ter paciência...
- Pai, não sabia que o senhor me achava bonito...
- Sai pra lá, seu....
Rizomar recebe um abraço súbito de Lindomar e chora. Mas passa a mão logo, pra que ninguém perceba. Afasta o corpo do filho e olha em seus olhos.
- Eu vou procurá não enchê o seu saco.
- Tudo bem, pai. Tudo bem. Tou vendo um lance aí. É forte. E é político. O tio vai me meter nessa área. Sei que o senhor num gosta. Mas é limpo. Serviço limpo.
- Mas e os currículo?
- Tou esperando. Mas acho que tou mais pra seguir essa área política.
- Prefiro que ocê trabaie pra traficante que pra ladrão!
- Pai, olha a besteira que o senhor tá falando.
- O tio Pororoca agora vai. E ele tá com oitenta por cento do nosso bairro.
Vai tirar o ovo da frigideira. Queimou um pouco. A mulher corre pra salvar.
- Cozinha não é teu forte.
Enquanto fala, ela coloca o ovo num prato, com arroz e farinha, conforme Lindomar gosta. O pai já se senta, falando de boca cheia.
- Vai trabalhá com o pior ladrão, meu irmão, um filho-da-puta que nunca viu o lado da famía.
Fina se intromete.
- Pai, o Rizo quer dar uma casa pro senhor, pra mãe, quer melhorar nossa vida.
- Cansei de estudar, de fazer bico, de ter emprego que dura três mês e vai simbora. E Fininha tá nessa comigo. Fala maninha...
- É, tou. 
- Mas até tu. Tu num tá num emprego bom?
- Tou e não tou. Recebo um salário menor que o mínimo. E só recebo com atraso. Faz dois meses que não recebo...O Rizo vai conseguir um emprego pra mim na campanha do Pororoca. E ai a gente vai subindo até tirar vocês desta me....
- Merda, dessa merda. Eu sei que é. Pensa que eu gosto?
Fina continua, tentando convencer.
- Pai, quero que o senhor e a mãe cuidem mais da saúde. Tenham conforto.
A mãe intervém, servindo ao marido o suco de pozinho, marca Mang, sabor maracujá, que ela acredita ter o dom de acalmar, como o maracujá de verdade.
- Cê tem de dar uma chance pros seus filho, home. Eles tem a cabeça boa. Eles vão conseguí. Você vai tê orgulho deles. Cê num vê aí. O Brasil afundano e us políticu sempre se danu bem.
- Não é isso que eu vejo não. Pelo contrário.
A mãe deixa derrubar umas gotas na toalha, enquanto continua.
- Mas logo vai ser tudo esquecido e tudo volta ao de antes.
- Eu num tou acreditando no que tou ouvino...
Josefina se distrai, ao pegar um pano pra enxugar a toalha da mesa, lembrando da noite de ontem. Ela e Porão no chão do barraco, conversando. A janela por onde ele entrou recebendo carícias do vento. A canoa balançando do lado de fora. Ela sonhando em trabalhar na Prefeitura com o tio. Ele sonhando em roubar um banco. Só uma vez. Uma só. Suficiente. Qual dos dois serve mais ao Porão do País? Será que um dia as coisas mudam?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

DESPREZANDO A TEBAIDA

Não sou o que esperam, não tenho a pretensão,
Observo-me e não vejo o interior que almejo
Encontrar no reflexo deste ser a catar
Os fragmentos vis de um reflexo lunar.
Sou o que filosofa sem saber filosofar,
O que esquece o que lembra, sem estar,
O que prefere as nuvens aos raios fatais,
A crer no Minotauro prefiro as gladiatrix
Que lutavam por glória, marcianas vestais;
No fundo do oceano de mim não mergulho
Pelo esmagamento que pode ocorrer,
Mas na superfície martelo um baú
Com Pandora ao centro, dando o que tira,
Roendo a esperança que cubro mas aos males
Rangendo em volta espanto, expondo tola raiva,
Distraindo da doença, que, embora o exercício,
Exara a sentença, desprezando os refúgios.

MAS TUDO É VÃO

Tudo pode ser luminoso na luz da memória.
Buscar o beco ou rua que morreu,
O campinho que aterrou o mangue,
O muro do qual se caiu duzentas vezes,
O porão que escondia tratores de toco,
Latas de sardinha como caçambas,
O prédio no qual se furou o pé.
O tanque no qual se conheceu
Estelita, a invulgar.
Envelhecer é
Um processo multifatorial
Que engloba perda de funções
E doenças típicas,
Culminando com a
Morte?
Buscar na memória o beco ou rua que morreu,
O Posto São Jorge, o Ferro Velho do Milton,
O campinho, a janela de vidro, sangue envolvendo
O pé e o prego enferrujado...
Catão, na velhice, descobriu a literatura.
Aprendeu Sócrates a tocar lira.
Desgaste de tecidos, fibroses,
Perdas de reservas regenerativas do sistema nervoso e
Imunológico, envelhecimento celular.
Ser feliz na velhice porém.
Lembrar o velório
De um homem centenário na rua paralela.
As festas de família em Registro
Com comida à farta e alegrias infindáveis.
Entrar no rio, andar de bicicleta na ladeira,
Se bestificar ante a praça de águas coloridas.
Um menino de quatro anos debaixo dos pés da morte.
Ratos sem exercício na associação atlética.
Mas tudo isso é vão.
Sócrates usava três pedras.
No entanto pensou bem
E não teve hemorroidas.
Hipócrates lambia os fluidos.
No entanto, pensou bem.
Esterco de crocodilo
Como creme de pele.
A esposa e a filha de Péricles
Seguiam a moda de então.
Dizem que anciões alegres
Não abreviam a morte
Mas envelhecem bem.
Os gregos não tratavam bem às mulheres.
Fazer mulheres comerem excremento de mula assado e vinho
Quando uma mulher tinha uma doença...
.....Pedir às filhas para não agendar o passado na máquina do tempo.
Envelhecer dá uma consciência
de sábio ou de paralelepípedo?
Colocar palavrões em versos é exibir
Uma espontaneidade vaidosa?

sábado, 13 de maio de 2017

ESPERANÇA RUBRA

ESPERANÇA RUBRA
- Peguei essa florzinha no lixo!
Lohana fazia um bico de choro que era uma beleza. Todas as amigas de sua mãe, conhecida como Dona Glê, gargalhavam do seu jeito bonitinho de iniciar o choro fazendo bico.
Mas a menina não gostava, guardava aquilo sentidamente. Uma vez, no Teatro Municipal, ia ter uma apresentação de teatro da Igreja O Amor Vence. No intervalo entre os dois atos, Dona Glê se levantou e gritou:
- Quem aqui quer ver o talento de minha filha?
- Para com isso, mãe. Eu não quero.
- Seja besta, menina. Faz o que eu mando. Vamo, vamo.
Arrastou sua filha pra cima do palco. E quando sua filha estava lá, bradou debaixo.
- Fica de frente, xixilenta!
Lohana ficou de frente.
- Levanta a cabeça!
Lohana levantou a cabeça.
Dona Glê ficou de pé. Olhou a platéia.
- Eu catei essa menina no lixo!
Era automático. Lohana fez o biquinho. Amaldiçoou a si mesma, o efeito foi o mesmo de sempre. Todos gargalharam. O teatro quase veio abaixo.
Passou a não gostar mais da companhia de sua mãe, que buscava sempre oportunidades de provocar-lhe o beicinho.
É que passou a crer naquilo como verdade. Porém, não se sentia agradecida por tal ato magnânimo. Por que sua mãe não a deixara no lixo? Já que era uma criatura-resto. Melhor do que ser humilhada. Certo que a tirou do lixo, a vestiu, alimentou, por um tempo fingiu até que amou-a.
Dona Glê era uma mulher exibida, desbocada. Seu marido vivia deitado, vítima do alcoolismo e da diabete. Não falava mais coisa com coisa. E desforrava o seu sofrimento nos frágeis seres que estavam mais próximos. A filha era uma delas. De início, não notara. Mas depois que as amigas deram vazão a gargalhadas homéricas, Dona Glê se sentiu correspondida, e passou a repetir a brincadeira onde desse. Era só falar a palavra lixo que, automaticamente, Lohana fazia o bico mais provocador do mundo.
Seu avô, ao contrário da filha, achava Lohana uma criatura palaciana. Uma princesa de alabastro, com um sorriso de ouro. E também divulgava essa qualidade principesca pra todos quanto podia. Mas efeito maior fizera sobre Lohana o terror que sua mãe implantara. Além do mais, seu avô morava em outro estado. A força de seu elogio era fraca.
Teve uma ideia: pegaria todas as flores dos 7 vasos que sua mãe cuidadosamente separara numa prateleira da área de serviço, amassaria com cera quente durante bastante tempo. Quando achasse que estava no ponto, derramaria a maçaroca nos próprios ouvidos. Assim o fez. E o que foi incrível foi ela não ter manifestado um nadinha de voz. As lágrimas desciam pelas maçãs do rosto, porém. Agora sua mãe poderia dizer o que quisesse. Ela não faria mais biquinhos e as colegas e vizinhas de sua progenitora não ririam mais.
Sem entender por que, Lohana tinha esperança de que sua alma se transformasse num belo parque ajardinado, com flores rubras por todo o entorno.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

FANTASVIRTUS



    Quando surgira naquele PC, não se sabe. Dizem que um programador esperto a criou para devorar vírus e afins.
    Com o tempo ela foi criando vida própria. Conseguia até sair da tela e aparecer por minutos no mundo real.
    Ela era uma fantasma bug/uesa, pixel/enta, típica entidade de PC com placa-mãe viciada, que não tinha medo dessa instabilidade, mas não sabia porque. Como adquirira esse bug, só ela sabia. Em que berço nascera? Só ela não sabia. Como e onde? Não sabia nem do programador. Do qual falavam muito. Achava que essa lenda era uma mentira para pacificar o povo da área de trabalho. Não tivera vida anterior? Em verdade, se sentia como uma entidade superior ao começo das coisas.
    Fora criada com um ícone infantil ao colo. Dizem que o programador quis somente brincar. E colocou essa criança como marca aleatória. Uma criança com rosto de granada.
    Ficara estremecida desde que aquele exorcista visitara o computador e benzera as memórias, atendendo aos vivos que o compraram. Vivos no sentido de espertos. Queriam revender pelo triplo do que valia, após o benzimento.
    Um motivo pra que ela os matasse. Como os mataria? Sairia da tela, hipnotizaria os mesmos e devoraria suas almas virulentas. O fato é que não conseguiu. Se apaixonou pelo mais moço. Quando apareceu fora do PC, não se assustaram. Resolveu hipnotizá-los e convenceu-os a saírem daquela casa e não voltarem mais. Ou seja, ao mais moço pediu que viesse de vez em quando.
    Pelo menos a casa ganhara mais momentos de silêncio. Procurou mostrar que era piedosa registrando a inevitabilidade de seu ato numa pasta chamada diário, no cantinho esquerdo da área de trabalho. Mas não cai nessa. Eu hein. Sou mouse das antigas.
    Um castigo : sua imagem apagava agora de dois em dois minutos. Teria de conviver com isso.
    O seu inferno se tornou maior também pelo surgimento de vírus traquinas, que chiavam continuamente, escondidos no sistema. Ah, sim. O moço morrera, debaixo de pilhas de placas-mãe num armazém de restos de computadores. Em lembrança dele, de tempos em tempos, ela transformava-se num descanso de tela, gerando explosões de fogos de artifício em todos os cantos.
    O que não tem remédio....BIIIIIIIIIIPPPPPPPP !!!! Esses traquinas também me irritam. Ainda bem que sou sem fio.

FLUTUANTE


...Quando quebrei o espelho, libertei as mil imagens.
Mas tive de rapidamente assimilá-las. 
Entendeu a razão de meus mil quilos?....
- Viu, seo Delega, o Cacaso falou-me assim objetivamente do teto, onde parara feito uma bexiga de aniversário, e queria que eu o rasgasse. Ele sabia da minha útil motosserra a gasolina 40 cc sabre de 16 polegadas.
Risquei longitudinalmente seu ventre com cocô de cachorro, do meu cachorro, o Pincel, pois, era somente o que estava à mão.
Antes de fazer o corte, pensei na fragilidade do Cacaso na minha mão, vieram-me à mente as fofocas que Cacaso fazia a respeito de todo mundo. Ele já me prejudicara bastante. Creio que havia uma semente invejosa no seu ser. Uma semente gigante.
Era uma maneira dele conseguir o amor de determinadas pessoas só para si. Fofocava mas era por amor. Isso. A consciência falava-me deste modo, mas, não inteiramente convencida. Sentia ela morder os dentes. E consciência trincando os dentes na cabeça dá uma dor.
Então, seu delega eu fiz o que tinha de ser feito. Não usei a motosserra. Apenas empurrei-o pela janela e ele, gritando, foi flutuando em direção à São Pedro.




NÃO DEU TEMPO


Cheguei em casa depois do trabalho.
Tranquei e abri.
E areei bem o fundo espelhado da panela.
Aquela que fora presenteada por uma ex....ou atual?
Estava desanimado mas...de uma hora pra outra passou.
Esqueci-me que trancara a casa e abrira o gás.
Tarde pra voltar atrás. Eu queria uma pizza. Não deu tempo.
Zás.