Mostrando postagens com marcador iria se redimir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador iria se redimir. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de novembro de 2013

TARDE PARA SÍSIFO

O galo arrebenta desfiando seu cantar, sucesso costumeiro na favela da Cota.

No leito, dorme, nua, feliz, quase de ventre rompido, a mulher do General do Bonde.

Ela sonha com um ex-namorado, o Joca. Sem querer. Quem controla o sonho? 

No sonho, fodem dentro de um carro japonês. É o que ela sabe. Joca coloca uma pomadinha em sua "flor". Pra não doer e dar amor sem gritos. E ele a chama de:

- Cadela! Como é gostoso comê seu cu! Deixa eu lambê ele agora, deixa?
- Vai com tudo. Chupa esse cu, que é seu!
- É meu? Só meu? Ou posso chamá a turma?
- Chama o bonde todo! Quero sentir todos!

O General é observador, mas ainda não tem o dom de enxergar sonhos alheios.

Ele nota um riso de gozo. Mas deduz outras coisas.

Os bicos dos seios dela vermelhíssimos, esfolados de tanto o filho sugar o leite. 
Sua irmã não tinha bico. O sobrinho mordia, devorador, e sua mana chorava, escandalosamente, ele lembra.

A irmã acreditava que em outra existência fora uma escrava que teve os peitos dilacerados pela maldade do senhor. Era da Igreja Nova das Neves Níveas. Ciumenta que só. Casada com o Pastor, que antes de ser da igreja era Pai-de-Santo e trambiqueiro. Também era e continuava mulherengo e transsengo. Gosta de mulheres e transsexuais.

Voltemos ao General. Enquanto sua mulher dorme, e recebe o bonde, o ex-bandido Sísifo Diavida prepara-se pra descer o morro.

Olha a esposa e tem a vontade de dar uma foda. Fosse mais cedo, bateria uma, só contemplando as curvas dela.

Mexeu na calcinha dela, colocou um pouco de lado, pra ver o cuzinho dela. Deu um beijo no centro da "flor". O tesão subiu a mil. Então, chegou uma hora que não deu pra evitar. Ele fez tudo e ela não acordou. A cama ficou encharcada de líquidos gozosos.

Ontem, fôra o último dia de transações erradas. Não adiaria mais o conserto da alma. Iria se redimir.

Apenas o medo de que antigos vícios e mortes cobrassem o justo pedágio. Mas seu filho a tudo compensava.

Garantia ao pai, mesmo preso no ventre da mãe?

Mesmo de divisas banhadas em sangue, resolve sair pra procurar emprego.

Iria conseguir.

Descia o morro, leve, de pensar no filho e na mulher. A impressão de deixar os pecados enquanto seguia rumo....Ah, sim. O jornal. 

Esquecera o jornal.

Volta correndo e encontra o jornal sujo de café em cima da mesa de mármore.

Com o jornal à frente dos olhos, vai decifrando, marcando com a íris os classificados.

Qual emprego lhe serviria? Era forte como um touro. Serviria qualquer arte em que pudesse usar os braços ou os dedos marcados de gatilho.

Mentalmente, repassava: pacoteiro, carregador, lixeiro, bagrinho?

Posicionava os ombros, enquanto descia, encaixando-os com orgulho e vaidade.

Herdara a constituição física do pai que, embora grande, era pequeno aos seus olhos, pois, bebia muito.

Bebia e surrava a família, começando pela mãe.

Um dia, em que sacara, desnorteado, uma faca, um tiro paralisou-lhe as intenções.

O filho cansara de ver a família sofrer.

Cai uma folha de jornal. Ele não pega. É a página de artes.

Fixa mais os olhos, início de hipermetropia. “Rua Mal. R......, número....É uma porra mesmo. Mancha de café. Caralho!”

Acabou a descida. Agora, tudo horizontal esperança. Pra onde ir, mesmo?

Algo se prepara pra lhe responder. De cada lado, um estranho perfume. Silêncio de calcinhas no varal.

Tarde para a emenda ao soneto. Dois furos no jornal e na carne enfrentam o vento em desclassificada ironia. 

Bang!!!Tuiiimmmmm!!!!

De madrugada, o jornal daria uma pequena notícia, devido à importância maior do incêndio na cidade cenográfica da Big Brother.